Cresci loucamente apaixonada por filmes de terror: uma das memórias mais fortes da minha infância é esconder o rosto nas mãos enquanto minha mãe assistia uma mulher possuída na TV, em um dos DVDs que alugamos na locadora para o fim de semana. O Exorcista me apavorou antes dos dez anos. Adoro histórias sobrenaturais e dou risada depois de um susto. Mas, cada vez mais, me vejo detestando alguns dos grandes sucessos recomendados por aí: saio com um gosto amargo na boca e a sensação de tempo perdido, sem entender onde a magia das histórias de horror se perdeu pra mim. Atualmente consigo ligar os pontos pela minha posição como mulher: me sinto horrorizada, de uma forma negativa, porque vejo o corpo feminino sendo usado apenas como elemento visual para chocar o espectador em cenas gráficas de abuso e tortura, enquanto o roteiro parece ter sido escrito em dois minutos.
Terrifier: a história de um palhaço-mímico que passa uma hora torturando mulheres na tela, sem nenhum motivo, nenhuma história de fundo. As atuações são terríveis e o filme nem tenta criar uma narrativa ou personalidade para as vítimas. O filme tenta se posicionar entre os clássicos slashers do terror como Freddy Krueger ou Ghostface, com seu vilão que só foi reconhecido pela maquiagem razoavelmente única. Porém, o filme se distancia totalmente do que atrai multidões até hoje para as franquias de Pânico ou Hora do Pesadelo, porque o roteiro não se sustenta em nada se desconsiderarmos a cena de uma mulher pelada sendo cortada no meio. Em Terrifier, as cenas de torturas contra mulheres são extremamente longas e criativas, enquanto os homens são mortos em segundos com um tiro, se chegar a isso. Como fã de terror, isso me deixa triste (e preocupada). Parece que existe uma nova onda de "qualquer um pode fazer terror", que enche os cinemas de estereótipos saturados enquanto o gênero perde cada vez mais o respeito quando comparado a outros gêneros "sérios" do cinema. Histórias fantásticas como Nós, de Jordan Peele, com uma das melhores performances que já assisti (ainda não acredito que a Lupita não levou um Oscar por esse), são desmerecidos ao serem colocados ao lado de filmes horríveis como The Poughkeepsie Tapes.
Recentemente tive a pior experiência com um filme de toda a minha vida: Holocausto Canibal. Presente em várias listas da internet como um clássico cult, conhecido por ser extremamente perturbador, não consegui parar de pensar no quanto era absurdo que algo desse tipo sequer fosse levado em consideração perto de outros filmes dos anos 80 como Possessão. A história acompanha um grupo de documentaristas que viaja para uma tribo na floresta amazônica e é morto por índios canibais. A realidade: uma história extremamente racista, que perpetua preconceitos absurdos sobre tribos indígenas, e um filme repleto de cenas de abuso, além de imagens onde animais reais são mortos durante as gravações. Senti meu estômago embrulhar e uma vontade absurda de chorar apenas por algo do tipo ter passado pela mente de alguém. Não porque eu não saiba lidar com histórias chocantes no cinema, mas porque não existe nada no roteiro, atuação ou imagem desse filme que justifique a sua existência. A suposta crítica ao sensacionalismo da mídia não justifica as cenas de estupro que duram minutos, sendo extremamente explícitas. Qual é a justificativa para desejar produzir algo do tipo além do fetichismo?
Essa violência se estabeleceu em um outro estereótipo comum de filmes de terror: a mulher abusada que volta para se vingar. Nessa narrativa supostamente prazerosa, ao retratar uma mulher que se vinga violentamente daqueles que fizeram algo contra ela, as cenas na tela são tudo menos reconfortantes para qualquer mulher: se a narrativa trata de abuso, o diretor (porque quase exclusivamente são homens) se sente no direito de retratar esse abuso em todos os seus detalhes gráficos. Já que a história é teoricamente empoderadora para essa mulher vingativa, então é tomado como justificado o uso de cenas extremamente violentas. E, se você ousar reclamar, é apenas o drama de alguém que não entende de cinema de terror, que tem o estômago fraco para filmes sangrentos. Eu tenho o estômago blindado para quase todo absurdo que já vi nesses anos sendo fã de terror, mas ainda sou mulher e não consigo entender a existência desse tipo de cena, que se torna um estereótipo cada vez mais comum com franquias como Doce Vingança.
Se tirando uma cena de abuso explícito de uma mulher o seu filme não tem mais nada de chocante, nenhum terror que mantenha a plateia presa, você não tem um filme, não tem um roteiro: tem algo mais próximo da pornografia que Ninfomaníaca. E não deixa de ser preocupante a normalização desse tipo de conteúdo, já que quase sempre que encontro um influenciador de filmes de terror que eu goste, é uma questão de tempo até que ele indique e favorite algo extremamente degradante para mulheres. O mais frustrante é a barreira para tocar no assunto: é difícil falar de limitar a violência nas telas sem parecer uma conservadora que acha que videogames são o maior problema do século. Tudo parece um extremo mimimi, e não sinto que existe abertura para debate entre aqueles que fazem parte dessa comunidade de fãs de terror.
Existe alguma forma de criar filmes de terror inovadores, que choquem a audiência, sem o uso desmedido de cenas de abuso de mulheres? Sucessos mais recentes como Bring Her Back (2025), A Substância (2024), Nós (2019) e Hereditário (2018) mostram que sim: todos estouraram com facilidade e conquistaram a aprovação do público puramente sustentados pelos roteiros. Então por que continuamos dando espaço a filmes puramente violentos, com a justificativa que o cinema de terror tem a única intenção de chocar e traumatizar quem assiste? Atualmente, ninguém espera ver um filme de terror entre os indicados de qualquer premiação fora de alguma categoria específica de horror. Será que realmente não temos ideia de como chegamos aqui?



